Celebração

Há 120 anos contribuindo na formação de grandes mulheres

Instituto São Benedito completa aniversário nesta quinta e de presente pede doações para famílias atendidas no local

Carlos Queiroz -

Importante na história de Pelotas e um marco na vida de mulheres negras do município, o Instituto São Benedito completa nesta quinta-feira (13) 120 anos de história. A data é comemorada por uma trajetória repleta não somente de boas histórias, de amor e superação, mas pela luta diária em prol de melhores condições de vida a meninas em situação de vulnerabilidade social, que encontram no local a possiblidade da construção de um futuro melhor através da educação, independente de classe social ou etnia.

Mesmo após tantos anos, o principal lema firmado em proporcionar uma educação integral, baseada na ação educativa, promoção e defesa da vida, desenvolvendo o saber fazer, ser e conviver, segue vivo. A instituição carrega consigo a proposição desde sua fundação, em 1901, por Luciana Lealdina de Araújo. Mulher, negra e filha de escrava, migrou para Pelotas alguns anos após, quando se deparou com a triste realidade de meninas negras e órfãs desamparadas, sem nenhuma instituição que as acolhesse. Na época, doente, Luciana fez uma promessa a São Benedito, caso fosse curada fundaria uma casa para acolher meninas sem distinção de cor.

O sonho tornou-se realidade e deu tão certo que funcionou, ao longo dos anos, como internato, colégio de ensino primário, até passar a ser uma escola de Ensino Fundamental e regime de semi-internato para crianças carentes, como é conhecido hoje. Atualmente atende, gratuitamente, cem crianças em situação de risco, oriundas das periferias da cidade. Além das aulas do 1º ao 5º ano, são oferecidas oficinas pedagógicas e culturais, no turno inverso.

Segundo a diretora da escola, Ingrid Santos, o legado de Luciana é relembrado todos os dias. "É uma instituição com 120 anos com foco no regate social, de autoestima, ensinando através da educação um caminho melhor. Para a cidade faz com que durante todos esses anos saiam daqui entre cem ou 140 crianças tocadas por todo trabalho que é feito por e com elas", relata.

Pela formação de mulheres

O perfil das crianças atendidas pela instituição também segue o mesmo. Historicamente o instituto recebe famílias de baixíssima renda - sendo a maior parte delas lideradas por mães solteiras - e meninas carentes, que em algum momento já foram expostas a algum tipos de violência ou com a possibilidade de inserção nesse meio. Segundo Ingrid, a maior parte das meninas possuem problemas de relacionamento com a figura paterna, o que posteriormente pode causar entraves.

"Trabalhar com essas famílias é uma responsabilidade muito grande. No momento em que a gente acolhe uma criança que a mãe diz que ela passou por determinados problemas como violência ou exclusão da família, como um pai que a rejeitou, são crianças muito feridas. Então a gente trabalha toda essa parte emocional para resgatar quem elas são, de se sentirem amadas mesmo que alguém da família não queira estar perto delas", conta a diretora.

Há pouco tempo no cargo, Ingrid afirma que entre as conversas com as seis funcionárias e sete professoras que a auxiliam diariamente, muitas relembram os frutos colhidos pelo Instituto São Benedito. "Tem ex-alunas juízas, advogadas, enfermeiras, muitas professoras. É a recompensa para o instituto, saber que de fato a criança saiu modificada para modificar outras pessoas".

Esses casos inspiram a pequena Mariana, de dez anos, que está cursando o 5º ano do Ensino Fundamental e terá que se despedir este ano do Instituto. Ela conta que o que mais gosta de fazer na escola é participar da oficina de dança, mas mesmo tão nova já tem firmada a ideia do que deseja para o futuro. "Eu queria continuar fazendo balé e quero me formar em administração, quero trabalhar em empresa", conta. Sua responsável, Tânia Ortiz, 66, conta que a infância da menina não está sendo fácil, após ficar órfã também perdeu a avó recentemente. Mas que só tem a agradecer ao Instituto pelo apoio e a educação que sempre foi dado a todas as alunas.

Educação capaz de formar valores

Além do Ensino Fundamental, no turno inverso projetos são ministrados, como canto, dança, artes, educação ambiental e formação humana e cristã. O objetivo das atividades é resgatar através das oficinas a parte social, o desenvolvimento cognitivo e lúdico das crianças.

Um dos preferidos, não só de Mariana, é a dança, que conta com aulas de balé e jazz, uma vez por semana. Para estimular o compromisso delas com o tipo de arte são realizadas apresentações na Fenadoce e no Theatro Guarany, anualmente. Porém para participar, a disciplina nos estudos é primordial. "Procuramos levar sempre em conta as boas notas e o bom comportamento para participar da dança", ressalta a diretora.

Outra oficina são aulas focadas nas "africanidades", ou seja, aulas sobre cultura africana. "A maioria das nossas meninas são negras. Então é muito importante elevar a autoestima delas, essa vivência da família negra, delas se orgulharem de serem meninas negras e que principalmente aceitem e vejam que tem que por elas mesmas lutarem contra o racismo".

As alunas recebem também curso de informática. "Se as mães não tem com quem deixar a criança ou ela tem que pagar alguém ou deixar com alguém que não sabe como vai cuidar. Então tem-se um lugar seguro, gratuito, que oferece três refeições por dia e ainda no final do dia, caso sobre, distribuímos para as famílias". O apoio ainda se estende a material escolar e até roupas para as alunas ou para outros irmãos".

Sem aulas, mas estendendo a corrente do bem

Com o início da pandemia, a preocupação redobrou. A ausência de aulas e, principalmente de alimentação para as meninas, fez com que, assim como o resto do mundo, o Instituto São Benedito se reinventasse. As aulas presenciais foram substituídas por folhas com atividades, desde o ano passado, em que em um período de 15 dias é preciso se deslocar até o instituto para receber os exercícios. Mesmo com as adversidades, o ano letivo de 2020 foi encerrado em dia, conforme conta a diretora.

Quanto à alimentação, surgiu a maior dificuldade. Muitas meninas tinham no Instituto a sua única forma de se alimentar. Com isso, o Instituto passou a oferecer cestas básicas às famílias. "A primeira cesta básica que a gente entregou foi no dia 8 de abril e depois fomos até o final do ano entregando para as famílias", relata Ingrid. O número de itens nas cestas variam de acordo com a quantidade de número de habitantes na residência.

Por alimentar as crianças com itens recebidos através de doações, método que segue com a montagem das cestas, a gestora conta que as contribuição caíram gradativamente com o passar dos meses. Neste ano, por exemplo, o Instituto conseguiu doar os primeiros itens apenas no mês de março. No dia em que a reportagem esteve no local, no início da tarde, 34 cestas já haviam sido entregues e o número de alimentos era escasso.

Ajuda

Para ajudar no trabalho assistencial às famílias que estão passando com dificuldades, todo auxílio é bem vindo. É aceito doação de alimentos, produtos de higiene e limpeza, podendo ser entregue diretamente no Instituto, à rua Félix da Cunha, 909. Ou através de depósito bancário.

PIX
Chave CNPJ 92.234.301/0001-06

Banco do Brasil
Agência 0029-9
Conta 5541-7

 

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